O primeiro transplante de cabeça

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Por Laiali Chaar

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Foto: Science Photo Library

       O neurocirurgião italiano Sergio Canavero anunciou essa semana que deseja realizar o experimento do Frankenstein reanimando cadáveres no ano que vem. O objetivo final do experimento na verdade é religar a medula espinal de pessoas que sofreram lesão medular. Essa cirurgia dá esperança a quem teve uma lesão medular cervical. Mas, para isso, ele começará testando o transplante de cabeça de pessoas vivas que sofreram uma lesão medular para corpos de cadáveres. Esse experimento já foi feito pelo mesmo grupo de pesquisa em cães e camundongos que após o transplante de cabeça foram capazes de voltar a andar e abanar o rabo três semanas depois de ter sido paralisados do pescoço para baixo. Mas, no início deste ano, cientistas chineses afirmaram ter realizado o mesmo transplante de cabeça em um macaco que foi incapaz de recuperar os movimentos. Mas, experimentos em animais não garantem os mesmos resultados em humanos.

       O planejamento é religar a medula espinal do corpo do cadáver e depois utilizar a estimulação elétrica ou magnética para “reanimar” os nervos e os movimentos do cadáver, como no filme do Frankestein. Além disso, eles injetaram um produto químico chamado polietilenoglicol no espaço entre a medula espinhal dos ratos que colou as estruturas. Segundo o neurocirurgião, já foram realizados experimentos em 1800 corpos de criminosos que foram bem-sucedidos. Um artigo sobre isso foi escrito pelo Neurocirurgião na revista Surgical Neurology Internacional.

       Muitas dúvidas surgem sobre tudo isso. Como esse cirurgião irá religar todos os neurônios da medula espinal e garantir que o movimento seja recuperado? E os aspectos éticos do transplante de cabeça?  E você o que acha dessa cirurgia?

Para saber mais:

CANAVERO, S;  REN, XIAOPING. Houston, GEMINI has landed: Spinal cord fusion achieved. Surgical Neurology Internacional. Sep 13;7(Suppl 24):S626-8, 2016.

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O que descobri no meu doutorado

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Por Laiali Chaar

img_7200📷: Fonte da imagem: Na foto aparecem corpos celulares e axônios de neurônios que usam CART como neurotransmissor. Chaar LJ et al 2016

               Essa é pra você que ficou curioso para saber o que estudei no Doutorado. Depois de 5 anos estudando o que uma dieta rica em gordura faz com o cérebro, descobri que um neurotransmissor chamado CART, que tem uma molécula bem parecida com a cocaína e anfetamina, está aumentado apenas em neurônios de obesos hipertensos. E ele parece ser a causa do aumento do sistema nervoso simpático, hipertensão arterial, infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral causados pela obesidade. Quem sabe isso possa ajudar um dia a encontrar a cura da hipertensão em obesos e diminuir o sofrimento de tantas pessoas. O artigo foi publicado na revista Physiological Reports. Quer ler o artigo onde foram publicados esses resultados na íntegra? Clica no link aí embaixo. Espero que gostem ❤️❤️.

Para saber mais:

Laiali Jurdi El Chaar. Como o açúcar e a gordura afetam nosso cérebro levando à hipertensão? Atlas of Science, 2017. 

Chaar LJ, Coelho A, Silva NM, Festuccia WL, Antunes VR. High-fat diet-induced hypertension and autonomic imbalance are associated with an upregulation of CART in the dorsomedial hypothalamus of mice. Physiol Rep., 2016

A Neurociência das férias

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Por Laiali Chaar

instagramImagem de ressonância magnética funcional das áreas cerebrais ativadas durante tarefas no trabalho (em azul e verde) e durante o descanso (em laranja e amarelo). Fonte da imagem: Adaptada de Raichle ME, 2015.

          Mês de julho, mês de férias, praia, montanha, sítio ou muitas horas de sono na cidade mesmo. Mas, o que acontece com nosso cérebro durante as férias? Os neurocientistas estão começaram a estudar a importância das férias para o nosso cérebro e descobriram que a atividade cerebral se reorganiza completamente durante este período.

    Podemos pensar que durante o descanso nosso cérebro fica sem atividade. Mas não é isso que acontece. A invenção de exames como o eletroencefalograma e a ressonância magnética funcional, mostraram uma realidade diferente: muitas áreas do cérebro são ativadas durante o descanso e durante as férias . Diversas pesquisas científicas revelaram que as áreas ativadas no cérebro quando estamos descansando são diferentes das áreas ativadas quando estamos trabalhando.

       Quando neurônios específicos são ativados dizemos que eles formam uma rede. Essas pesquisas descobriram que nosso cérebro tem duas redes principais: uma rede de tarefas positivas, também chamada de rede de controle executivo, que é ativada quando realizamos e focamos em uma tarefa. E uma rede de neurônios chamada de rede de processamento padrão ou rede de tarefas negativas, que é ativada quando deixamos a nossa mente descansar em um fim de semana ou durante as férias ou quando estamos sonhando enquanto dormimos. Essas duas redes estão na figura acima: em azul e verde está representada a rede de tarefas positivas e em laranja e amarelo está representada a rede de tarefas negativas. Quando uma destas redes é ativa a outra está desligada.

As duas redes são importantes para nossa vida e nos permitiram grandes descobertas. A rede de  tarefas negativas é a que nos permite fazer conexões entre ideias soltas e é responsável pelos nossos momentos de genialidade. Graças a ela resolvemos os nossos problemas mais complicados através de boas ideias.

     O nosso hipocampo, área importante da memória mantem uma lista atualizada de problemas como uma agenda. Quanto mais ativo o hipocampo, mais ativa outra região, o locus coeruleus, “lugar azul” do cérebro que, ao contrário do que o nome fofinho parece, é responsável por nos deixar acordados, estressados, prontos para a ação e preocupados com nossos problemas. Nas férias o hipocampo e o locus coeruleus são menos ativados, porque as únicas preocupações são que lugar visitar ou o que comer.

Há pelo menos 9 boas razões comprovadas pela Neurociência para tirar férias:

  • Aumentar a felicidade (graças a famosa dopamina que é liberada)
  • Aumentar a criatividade: ideias novas são importantes
  • Tomar melhores decisões
  • Aliviar o estresse: O estresse libera cortisol e adrenalina que alteram nossa resposta imune e a atividade cerebral
  • O contato com a natureza ajuda no relaxamento e deixa a mente sadia
  • O silêncio ajuda a ativar a rede de processamento padrão, diminui o estresse e favorece a neurogênese
  • Conhecer uma nova cultura ou uma realidade diferente da sua ajuda a ter um pensamento mais flexível
  • Aumentar a concentração na volta ao trabalho
  • Aumentar a produtividade na volta ao trabalho

 

       Mais detalhes de cada um desses itens serão assunto das próximas postagens do TUDO SOBRE CONTROLE. Agora você já sabe que a importância das férias foi até comprovada pela Neurociência. E se não der para tirar férias você pode transformar cada fim de semana em miniférias. Não é tão difícil quanto parece. Experimente começar desligando o computador e deixando os e-mails para segunda-feira. Seu cérebro agradece!

Para saber mais:

Dijksterhuis, A. et. Al. (2006) On making the right choice: the deliberation-without-attention effect. Science; 311(5763):1005-1007.

Fox MD, Snyder AZ, Vincent JL, Corbetta M, Van Essen DC, Raichle ME. The human brain is intrinsically organized into dynamic, anticorrelated functional networks. Proc Natl Acad Sci U S A. 102(27):9673-8, 2005.

Immordino, M. H. et. Al. (2012) Rest Is Not Idleness. Implications of the Brain’s Default Mode for Human Development and Education. Perspectives on Psychological Science; 7(4): 352-364.

Leung, A. K. et. Al. (2008) Multicultural experience enhances creativity: the when and how. The American Psychologist; 63(3): 169-181. 

Nawijn, J. et Al. (2010) Vacationers Happier, but Most not Happier After a Holiday. Applied Research in Quality of Life; 5(1): 35-47. 

Raichle ME. The brain’s default mode network. Annu Rev Neurosci. 38:433-47, 2015.

 

 

 

 

 

 

 

Confirmado! Vírus zika pode causar microcefalia

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Por Laiali Chaar

Figura 1Imagem de ressonância magnética de um encéfalo de um recém-nascido com encéfalo no tamanho esperado (esquerda) e de um com microcefalia (direita). 

     Poucas horas atrás pesquisadores brasileiros publicaram um artigo na revista Nature comprovando definitivamente que o vírus Zika pode causar microcefalia. Nele, foram feitos experimentos com camundongos por um grupo de pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo que mostraram que o Zika é capaz nas grávidas de atravessar a barreira placentária, infectar e matar as células que dariam origem aos neurônios do feto causando má-formação do cérebro e microcefalia. Dados de testes em células sugerem também que o vírus zika que está sendo transmitido no Brasil é mais agressivo do que o vírus africano, que originalmente infectava macacos. Explicando assim, porque o vírus na África não provocou uma epidemia de microcefalia. Isso confirma a teoria de que, nos últimos anos, o Zika vírus teria sofrido mutações que o tornaram mais eficiente para infectar humanos. Essas ideias eram dúvidas até ontem e hoje foram comprovadas por esse grupo de pesquisadores brasileiros. O artigo com os resultados está no link abaixo:

Cugola, F. R.; Fernandes,  I. R.;  Russo, F. B.; Freitas, B. C.; Dias, J. L. M.; Guimarães, K. P.; Benazzato, C.; Almeida, N.; Pignatari, G. C.; Romero, S.;  Polonio, C. M.; Cunha, I.;  Freitas, C. L.; Brandão, W. N.; Rossato, C.; Andrade, D. G.; Faria, D. P.; Garcez, A. T.; Buchpigel, C. A.; Braconi, C. T.; Mendes, E.; Sall, A. A.; Zanotto, P. M. A.; Peron, J. P. S.; Muotri, A. R.; Beltrão-Braga, P C. B. The Brazilian Zika virus strain causes birth defects in experimental models. Nature letter, 2016.

 📷 Crédito da imagem: adaptada da assessoria de imprensa da Universidade de Yale.

Leite materno estimula o desenvolvimento cerebral de bebês prematuros

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Por Laiali Chaar

bebe prematuro 1Imagem de ressonância magnética do encéfalo de um bebê recém-nascido com cores diferentes nas diferentes regiões encefálicas. Essa técnica é uma dos várias utilizadas para fazer um mapa do desenvolvimento do cérebro e investigar as causas e consequências de uma lesão cerebral. Fonte da imagem: Universidade de Edimburgo.

      Vários benefícios do aleitamento materno para a saúde do bebê já são conhecidos como: a proteção contra inflamação, infecções e doenças graças à sua composição rica em nutrientes e anticorpos. Mas, a última descoberta da Neurociência é que o aleitamento materno pode estimular o crescimento do cérebro de bebês prematuros. Então, nesse dia das mães nós teremos mais um motivo para agradecer nossa mãe: ela ter nos amamentado! A novidade foi apresentada essa semana, no dia 3 de Maio, na Reunião Anual das Sociedades Acadêmicas de Pediatria nos Estados Unidos pela neurocientista Erin Reynolds da Universidade de Washington.

  Ela descobriu que alimentar os bebês prematuros com leite materno durante o primeiro mês de vida parece estimular o crescimento do córtex cerebral. O córtex é a parte do cérebro que tem muitas funções. Dentre elas, o córtex também é associado à cognição, ou seja, o raciocínio, a ação mental de aquisição de conhecimentos e compreensão através do pensamento, da experiência e dos sentidos. Então, é importante ter mais córtex porque isso pode ajudar também a melhorar o raciocínio e inteligência dessas crianças. Os prematuros em que as dietas diárias eram de pelo menos 50% de leite materno tinham mais tecido cerebral e área da superfície do córtex do que bebês prematuros que consumiram menos leite materno com mesma idade, independentemente se o leite era da própria mãe do bebê ou foi doado por outra mãe. A área de superfície do córtex foi analisada por exames de ressonância magnética.

Leia também: Gravidez causa mudanças no cérebro da mãe

    Uma gravidez a termo, ou seja, no tempo adequado dura 40 semanas. Um nascimento prematuro é considerado quando um bebê nasce antes das 37 semanas de gestação. Como os bebês nascidos prematuramente ainda estavam em desenvolvimento, eles normalmente têm cérebros menores que crianças nascidas a termo e com menor volume e conexões do córtex com outras regiões. O parto prematuro é a principal causa de problemas neurológicos em crianças e tem sido associada a um risco aumentado de alterações psiquiátricas mais tarde na infância.

Leia também: Células do filho migram para o cérebro da mãe e podem prevenir Alzheimer

Assim, mais uma vez fica comprovado que o leite materno é a melhor fonte de nutrição para o bebê. Especialistas em saúde e pediatras recomendam fortemente a alimentação apenas com leite materno até os seis meses de idade. Além disso, a amamentação deve continuar acompanhada por outros alimentos até 24 meses de idade da criança. As mães também são beneficiadas com a amamentação. pois ela estimula a contração do útero para eliminar o sangramento após o parto. Além de ser também uma ótima maneira das mães se relacionarem com seus bebês. No entanto, mais estudos são necessários para saber como o leite materno afeta o cérebro e que componentes do leite favorecem o desenvolvimento do cérebro.

Para saber mais:

Reynolds E, et al. Effects of breast milk consumption in the first month of life on early brain development in premature infants. Abstract presented at the Pediatric Academic Societies 2016 meeting, May 3, 2016.

Ball G, Boardman JP, Aljabar P, Pandit A, Arichi T, Merchant N, Rueckert D, Edwards AD, Counsell SJ. The influence of preterm birth on the developing thalamocortical connectome. Cortex, 49(6):1711-21, 2013.

Retrospectiva 2015: 10 coisas fascinantes que aprendemos sobre a mente em 2015

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Por Laiali Chaar

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Tomografia de encéfalo com Alzheimer. A cor vermelha mostra o fluxo sanguíneo máximo, o verde-amarelo indica menor fluxo de sangue, enquanto áreas em roxo, azul e verde escuro indicam nenhum fluxo. Jonathan Selig via Getty Images.

Muitos estudos interessantes foram publicados sobre a mente em 2015 desvendando mais alguns mistérios do nosso cérebro. Para começar 2016 listei dez descobertas fascinantes sobre o cérebro feitas em 2015. Aí estão elas:

1. Se for teclar não beba, se for beber não tecle

Hoje você esbarrou em alguém na rua? Esqueceu algo em casa? Esqueceu de um compromisso?

Se você respondeu sim a qualquer uma destas perguntas, há uma boa chance de  você estar gastando muito tempo olhando seu celular. Em nosso estilo de vida atual passamos muito tempo olhando a tela de nosso smartphone. Cientistas descobriram que enquanto usamos um smartphone na rua temos o mesmo padrão de caminhada que o andar de um bêbado por causa da desatenção que o celular gera. Além disso, quando seu celular vibra, isso já é suficiente para diminuir sua produtividade no trabalho ou nos seus estudos. Usuários de smartphones também tem maior chance de terem perdas de memória e tem menor capacidade de foco tendo como consequência esquecer compromissos, perder coisas e andar em direção às pessoas enquanto usam o smartphone.  A tecnologia é maravilhosa para facilitar nossas vidas, mas existe um limite saudável para seu uso para manter nossas capacidades cognitivas de memória e raciocínio.

Para saber mais: Artigo 1 e Artigo 2.

2. Poluição é pior para o cérebro do que achávamos

Uma pesquisa mostrou que a poluição do ar pode acelerar o envelhecimento cerebral e contribuir para o desenvolvimento de doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson. Esse estudo mostrou que aumentos pequenos na concentração de poluição são associados com diminuição da substância branca cerebral. A substância branca é importante por possuir células que sustentam e fazem o isolamento elétrico e nutrição dos neurônios. É como se a poluição derretesse o cérebro. Isso sugere que a poluição pode ser a causa mais agressiva de doenças cerebrais que já foi descoberta.

Para saber mais: Artigo 1, Artigo 2 e Artigo 3

3. O vírus zika e a sua relação com a epidemia de microcefalia no Brasil

Microcefalia é uma condição congênita rara em que o cérebro e o crânio são menores do que o esperado causada por alteração genética ou por substâncias tóxicas como drogas, radiação ou infecções que interferem no desenvolvimento cerebral. Ela causa déficits neurológicos, cognitivos e motores, e retardo mental. Em Agosto houve um aumento de vinte vezes nos casos de microcefalia no Brasil. A relação entre o vírus zika e a epidemia de microcefalia, inédita na ciência mundial, foi descoberta quando foi encontrado o vírus no sangue de um bebê com microcefalia. Isso já foi confirmado pelo Ministério da Saúde e Organização Mundial de Saúde em Novembro. Essa relação ainda precisa ser confirmada porque ainda não existem trabalhos científicos publicados sobre isso e há dúvidas no ar sobre quais mecanismos levam à microcefalia. Mas, foram feitas diversas observações de casos que sugerem essa relação entre o vírus zika e microcefalia. Ainda não existem vacinas para o vírus então, a única maneira de combatê-lo é acabando com o vetor, o mosquito Aedes aegypti, evitando acumular água parada e mulheres grávidas devem se proteger contra picadas com repelentes, telas de proteção ou mosquiteiros.

Para saber mais: Artigo

Atualização em 01/04/2016: A Organização da Saúde confirmou a relação entre o vírus da Zika e microcefalia nessa semana. Foram publicados alguns trabalhos científicos confirmando a relação do vírus Zika com microcefalia. Agora isso é um consenso científico.Cientistas encontraram o vírus no cérebro de bebês afetadas com microcefalia e agora um artigo foi publicado demonstrando que a infecção por vírus Zika aumenta a chance de nascimentos de bebês com microcefalia. A questão ainda sem resposta é seria o Zika realmente o culpado pelo aumento dos casos de microcefalia? E se eu pegar uma infecção de Zika durante a gravidez, quais são as chances de que meu bebê vai ser afetadoAtualmente, o vírus Zika está circulando em 33 países, nas Américas e infectou centenas de milhares de pessoas.

4. Apagar memórias pode ser o futuro dos tratamentos para os vícios

Cientistas apagando ou transplantando memórias no cérebro não são mais apenas coisa de filmes ou séries de ficção científica. Apagar a memória em breve poderá ser uma realidade. Uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Scripps publicada na revista Molecular Psychiatry identificou uma nova droga, a blebbistatina, que com apenas uma dose tem o potencial para apagar seletivamente memórias de vício em pessoas viciadas em drogas deixando outras memórias intactas. Isso poderia nos ajudar a tratar melhor a dependência química por apagar as memórias relacionadas com os efeitos prazerosos da droga e recaída bloqueado por pelo menos um mês.

Para saber mais: Artigo

5. Para melhorar seu humor, mude suas bactérias

A comunicação entre intestino-cérebro foi outro tema importante na Neurociência nos últimos anos. Em 2015, pesquisadores descobriram que o equilíbrio das bactérias saudáveis no intestino pode ajudar a diminuir a ansiedade e os sintomas da depressão. De acordo com uma pesquisa publicada na revista Nature, o estresse altera a microbiota (ou flora) intestinal e pode causar ansiedade e depressão em camundongos. Isso porque esta alteração na microbiota intestinal ativa a liberação de neurotransmissores no hipotálamo, que em excesso, levam à ansiedade e depressão. Uma dieta com excesso de gordura também pode alterar a microbiota da mesma maneira. Por outro lado, outro estudo mostrou que as pessoas que têm mais alimentos fermentados em sua dieta, que são repletos de bactérias saudáveis conhecidas como probióticas, apresentam menos neuroses e ansiedade social. É fascinante que microrganismos tão pequenos em seu intestino podem influenciar sua mente.

Para saber mais: Artigo 1, Artigo 2Artigo 3 e Artigo 4

6. Um bom sono é essencial para uma vida emocional saudável

Já foi bem demonstrado nas pesquisas que um bom sono é fundamental para o bem-estar psicológico. Também já foi bem demonstrado que a privação do sono, por outro lado, aumenta os níveis de estresse e é associada com ansiedade, depressão  e outros problemas de saúde mental. Além disso, em 2015 foi descoberto que a falta de sono poderia alterar nossa inteligência emocional. Um estudo marcante da Neurociência publicado em Julho do ano passado no Journal of Neuroscience descobriu que um bom sono também é muito importante para manter a inteligência emocional. Os pesquisadores mostraram que não ter um sono adequado diminui nossa capacidade de ler expressões faciais, que é um componente-chave para entender as emoções de quem nos relacionamos.

Para saber mais: Artigo

7. A natureza deixa a mente sadia

Você já deve ter percebido que caminhar na natureza te deixa mais tranquilo. A Neurociência já sabia que passar tempo ao ar livre traz benefícios significativos para a saúde física e mental. Mas ano passado, os pesquisadores descobriram que os benefícios psicológicos dados pela natureza são ainda maiores do que imaginávamos. Uma pesquisa feita na Universidade de Stanford publicada em Julho de 2015 descobriu que passeios ao ar livre reduzem os pensamentos negativos obsessivos que caracterizam a depressão. Outro estudo publicado no fim do ano passado descobriu que passar um tempo na natureza também pode ter aplicações no tratamento para a dependência química com redução da  impulsividade e melhor auto-controle o que seria fantástico.

Para saber mais: Artigo 1 e Artigo 2

8. Alzheimer pode ser transmissível

É possível transmitir a doença de Alzheimer de uma pessoa para outra, de acordo com um estudo publicado ontem na revista Nature feito por cientistas da University College de Londres. Você não pode pegar a doença de Alzheimer por cuidar de alguém com a doença de Alzheimer. Mas, a transmissão pode ocorrer em situações inusitadas envolvendo contato direto com o tecido cerebral como em neurocirurgias através de material cirúrgico contaminado. A contaminação faz com que haja deposição de proteína beta-amilóide que causa Alzheimer no cérebro da outra pessoa afetando ao longo dos anos a memória e o raciocínio.

Para saber mais: Artigo 

9. É possível prever que uma pessoa terá Parkinson pelo odor de seu suor

Parkinson é uma doença neurodegenerativa progressiva marcada por tremor e dificuldades de movimentos. Seis anos antes do marido da senhora inglesa Joy Milne ser diagnosticado com Parkinson ela percebeu que ele passou a ter um cheiro diferente e almiscarado. Ela só relacionou esse odor ao Parkinson após visitar uma instituição onde conheceu mais pessoas com a doença que tinham o mesmo odor que seu marido. Em testes feitos por pesquisadores com camisetas de pessoas com ou sem a doença ela acertou 11 entre 12. Uma possível explicação é que o sebo, um óleo que lubrifica e impermeabiliza a pele, é quimicamente alterado em pessoas com Parkinson produzindo um odor único que pode ser percebido por algumas pessoas que tem um olfato poderoso, como ela. Graças a senhora Joy, pesquisadores do Instituto de Biotecnologia de Manchester e da Fundação Parkinson UK estão investigando se algum teste de odor da pele poderia detectar o Parkinson precocemente o que seria uma esperança para milhares de pessoas.

Para saber mais: Artigo

10. Os cientistas descobriram a fonte da juventude (pelo menos no cérebro)

Cientistas encontraram uma maneira de reverter o envelhecimento dos neurônios. Camundongos idosos receberam uma transfusão de sangue de jovens. Um grupo de pesquisadores da Universidade de Stanford na Califórnia queria saber qual o efeito disso sobre o cérebro, estudou isso e publicou os resultados na Revista Nature. Com o envelhecimento, os neurônios perdem suas conexões e começam a morrer até que, por fim, o cérebro encolhe e torna-se menos eficaz. Uma região chamada hipocampo, crucial para memória e aprendizagem, é uma das primeiras áreas do cérebro a se deteriorar com a idade, causando falhas na memória e no raciocínio. Mas, camundongos velhos que receberam sangue jovem tiveram uma explosão no crescimento de #neurônios no #hipocampo. Eles tinham de três a quatro vezes mais neurônios do que camundongos idosos que não receberam transfusão como muitos camundongos recém-nascidos. Esta descoberta é uma esperança para o tratamento de doenças neurodegenerativas relacionadas a idade em que há morte neuronal como Parkinson e Alzheimer. Então, Drácula estava certo, o sangue de jovens pode ser a fonte eterna da juventude.

Para saber mais: Artigo

Essas foram algumas descobertas fascinantes da Neurociência em 2015. Vamos aguardar pelas descobertas interessantes em 2016. E você poderá ler sobre elas aqui no Tudo sobre controle.

A Neurociência do Star Wars

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        A arte e a ciência caminham de mãos dadas mesmo que as vezes pareçam  distantes. Se você acha que sabres de luz, naves da frota imperial e a Força não tem nada a ver com neurônios, potenciais de ação e ondas cerebrais você está totalmente enganado. Se você é fã de Star Wars, como eu, chegou a hora de saber mais sobre o que esse filme faz com seu cérebro e a Neurociência de Star Wars.
          Pela primeira vez em dez anos, um novo filme desta saga está entre nós. E isso faz o núcleo accumbens de seus fãs liberar o neurotransmissor dopamina o mais rápido que ele pode. O núcleo accumbens, representado na figura abaixo, é uma região localizada na região central do encéfalo e faz parte do sistema de recompensa (já falei um pouco sobre sistema de recompensa e  dopamina aqui no TUDO SOBRE CONTROLE). Essa região do cérebro gera nosso prazer, nossa impulsividade e nosso comportamento maternal. Tecnicamente, tudo que nos faz feliz libera dopamina no núcleo accumbens como, por exemplo: comer, se apaixonar, viajar, dormir, estar com quem gostamos, esperar pelo novo filme do Star Wars ou pelo próximo post do TUDO SOBRE CONTROLE hehe.
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Imagine um cérebro visto pela parte superior. O núcleo accumbens está localizado próximo à região central do cérebro. 

O prazer teve uma função importantíssima em nossa evolução. O prazer aumentou a probabilidade de sobrevivência de nossa espécie porque gerou comportamentos como comer alimentos mais calóricos, dormir bem, aprender novas habilidades, buscar apoio social e fazer sexo. Esse prazer também aumentou a motivação para repetir essas atividades até ficarmos saciados. Atualmente, o prazer pode ser estimulado por qualquer atividade prazerosa mesmo sem função de sobrevivência, como jogos, músicas, dancar, ler livros, assistir Star Wars: o Despertar da Força ou outro filme que você goste ou ler as matérias do TUDO SOBRE CONTROLE hehe. O prazer é especialmente superativado por drogas como álcool, anfetaminas e heroína. Por isso, o núcleo accumbens e a dopamina também são responsáveis pelos vícios, ou seja pela dependência química e física gerada pelas drogas.

         Em uma sala de cinema dezenas de estranhos se sentam ao lado um do outro. Porém, estudos científicos mostraram que, mesmo sem se conhecer, as pessoas tendem a piscar ao mesmo tempo. Além disso, a maioria dos telespectadores foca sua atenção no mesmo ponto das cenas. E até mesmo a atividade cerebral da plateia é sincronizada. Uma pesquisa publicada na revista Science em 2004 utilizou eletroencefalograma para analisar as ondas cerebrais e o eye tracking, técnica usada para analisar os movimentos oculares e o padrão de fixação do olhar enquanto a plateia assistia diversos filmes. Essa pesquisa mostrou que filmes bem estruturados e que usam muitos recursos cinematográficos como cortes, ângulos de câmera e composições conseguem sincronizar até  70% da atividade cerebral da plateia. Incrível, não é? Isso é um pouco assustador, porque dá a ideia de que o filme domina a percepção e a  atividade cerebral da platéia. E é justamente isso que acontece.  Por exemplo, em uma cena do filme Cisne Negro em que Nina, a personagem principal, imagina sentir penas negras nascendo nas suas costas, alcança 70% de sincronia no córtex dos espectadores analisados.
      Então quer dizer que, depois desses resultados, os estúdios de cinema podem usar ressonância magnética para saber que filmes atraem o público ou não? Talvez, depende. Isso porque em filmes que brincam com a ambiguidade e a falta de estrutura o diretor deseja que a platéia não tenha uma sincronização de seus pensamentos. Então, nesse tipo de filme, seria mais desejado que a plateia nao tivesse sincronia em sua atividade cerebral.

Agora que você já sabe o que assistir o novo Star Wars faz com seu cérebro chegou a hora de revelar a Neurociência por trás dos personagens e acontecimentos do Star Wars. Atenção, a partir de agora haverá spoillers dos filmes 1,2,3,4,5, e 6, mas não do novo filme que está em cartaz. Então, se você ainda não assistiu os filmes anteriores e não quer saber o que aconteceu, não leia daqui em diante.

Muitos personagens de Star Wars precisariam fazer uma visitinha em um terapeuta. Star Wars foi usado por cientistas para estudar aspectos da mente humana. Estes cientistas inclusive sugerem que o exemplo dos personagens seja usado nas aulas para ilustrar aos alunos diversas doenças psiquiátricas. No filme aparecem muitos traços do “lado negro” de personalidades como: maquiavelismo, narcisismo, psicopatia, tensão sexual entre irmãos, traição amorosa e problemas sérios entre pai e filho. Darth Vader é um clássico exemplo em que a influência dos pais levou ao desenvolvimento do “lado negro” da personalidade  de seus filhos. Psicólogos neste estudo analisaram que o jovem Darth Vader, Anakin Skywalker, apresenta traços de uma personalidade borderline, C3PO é obsessivo compulsivo, Mestre Yoda tem dislexia e Luke Skylwaker tem esquizofrenia prodromal,  Jar Jar Binks é psicopata e apresenta transtorno de déficit de atenção e personalidade.

No filme o Império Contra-Ataca, Darth Vader congela Han Solo em uma câmara congelante de carbono, mesmo assim Han Solo continua vivo apesar de congelado até ser resgatado no próximo filme. Mas, seria possível congelar alguém em carbonito na vida real? Seria possível fazer isso na vida real não com carbonito, mas com nitrogênio liquido, preservando o corpo da decomposição mesmo após a morte. Realmente, existe uma empresa particular que faz isso, porém ela congela apenas as cabeças das pessoas  para reduzir os custos de congelamento por décadas, talvez séculos. Esse processo preservaria o encéfalo e as sinapses que decodificam a memória e a personalidade do indivíduo. Um desafio deste congelamento  é garantir que não se formem cristais de gelo durante o processo, pois isso mataria os neurônios e outras células cerebrais. Apesar disso, nenhum ser humano foi ainda ressucitado por esse processo, apenas peixinhos dourados. Então, não podemos dizer se Han Solo poderia realmente sobreviver a este procedimento.

    Darth Vader possuía pernas robóticas. No fim do filme o Império contra-ataca, Luke perde seu braço após um duelo de sabre de luz com Vader. Graças a cibernética, ele também recebe uma mão robótica que controla com o pensamento. Quando esse filme foi filmado mãos robóticas eram ainda ficção científica, mas hoje em dia são realidade. Ano passado, cientistas da Universidade John Hopkins, fizeram com que Les Baugh fosse o primeiro amputado de membro superior bilateral a controlar os movimentos de um braço biônico com o pensamento. Isso foi possível graças a técnica de eletroencefalograma de novo, mas dessa vez com eletrodos dentro do crânio, que traduzem a ativação de neurônios e gera movimentos no braço biônico. Essa invenção poderá ajudar a melhorar a vida de milhões de pessoas com necessidades especiais.
        A Força é um conceito ficcional, mas a meditação que é praticada pelos Jedis tem alguns efeitos comprovados pela ciência. Ondas alfa são ondas entre 8 e 12 Hz e são observadas durante grande relaxamento quando os olhos são fechados no eletroencefalograma. Pessoas que tem prática na meditação tem suas ondas alfas são mais resistentes à distração que pessoas que estão aprendendo a meditar.  Isso mostra que a meditação aumenta o foco de seus praticantes.
       Então, quando for assistir ao novo filme em cartaz nos cinemas, Star Wars, o Despertar da Força, preste atenção à Neurociência e Biologia presentes nos acontecimentos. Que a Força esteja com você! E bom filme!

Para aprender mais:

Hasson U, Nir Y, Levy I, Fuhrmann G, Malach R. Intersubject synchronization of cortical activity during natural vision. Science. 2004 Mar 12;303(5664):1634-40, 2004.

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Jonasona P K,  Lyonsb M, Bethelic E.  The making of Darth Vader: Parent–child care and the Dark Triad. Personality and Individual Differences. Volume 67, Paginas 30–34. Setembro 2014.

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