Leite materno estimula o desenvolvimento cerebral de bebês prematuros

Siga o TUDO SOBRE CONTROLE NEURAL no facebookno instagram e no twitter

Por Laiali Chaar

bebe prematuro 1Imagem de ressonância magnética do encéfalo de um bebê recém-nascido com cores diferentes nas diferentes regiões encefálicas. Essa técnica é uma dos várias utilizadas para fazer um mapa do desenvolvimento do cérebro e investigar as causas e consequências de uma lesão cerebral. Fonte da imagem: Universidade de Edimburgo.

      Vários benefícios do aleitamento materno para a saúde do bebê já são conhecidos como: a proteção contra inflamação, infecções e doenças graças à sua composição rica em nutrientes e anticorpos. Mas, a última descoberta da Neurociência é que o aleitamento materno pode estimular o crescimento do cérebro de bebês prematuros. Então, nesse dia das mães nós teremos mais um motivo para agradecer nossa mãe: ela ter nos amamentado! A novidade foi apresentada essa semana, no dia 3 de Maio, na Reunião Anual das Sociedades Acadêmicas de Pediatria nos Estados Unidos pela neurocientista Erin Reynolds da Universidade de Washington.

  Ela descobriu que alimentar os bebês prematuros com leite materno durante o primeiro mês de vida parece estimular o crescimento do córtex cerebral. O córtex é a parte do cérebro que tem muitas funções. Dentre elas, o córtex também é associado à cognição, ou seja, o raciocínio, a ação mental de aquisição de conhecimentos e compreensão através do pensamento, da experiência e dos sentidos. Então, é importante ter mais córtex porque isso pode ajudar também a melhorar o raciocínio e inteligência dessas crianças. Os prematuros em que as dietas diárias eram de pelo menos 50% de leite materno tinham mais tecido cerebral e área da superfície do córtex do que bebês prematuros que consumiram menos leite materno com mesma idade, independentemente se o leite era da própria mãe do bebê ou foi doado por outra mãe. A área de superfície do córtex foi analisada por exames de ressonância magnética.

Leia também: Gravidez causa mudanças no cérebro da mãe

    Uma gravidez a termo, ou seja, no tempo adequado dura 40 semanas. Um nascimento prematuro é considerado quando um bebê nasce antes das 37 semanas de gestação. Como os bebês nascidos prematuramente ainda estavam em desenvolvimento, eles normalmente têm cérebros menores que crianças nascidas a termo e com menor volume e conexões do córtex com outras regiões. O parto prematuro é a principal causa de problemas neurológicos em crianças e tem sido associada a um risco aumentado de alterações psiquiátricas mais tarde na infância.

Leia também: Células do filho migram para o cérebro da mãe e podem prevenir Alzheimer

Assim, mais uma vez fica comprovado que o leite materno é a melhor fonte de nutrição para o bebê. Especialistas em saúde e pediatras recomendam fortemente a alimentação apenas com leite materno até os seis meses de idade. Além disso, a amamentação deve continuar acompanhada por outros alimentos até 24 meses de idade da criança. As mães também são beneficiadas com a amamentação. pois ela estimula a contração do útero para eliminar o sangramento após o parto. Além de ser também uma ótima maneira das mães se relacionarem com seus bebês. No entanto, mais estudos são necessários para saber como o leite materno afeta o cérebro e que componentes do leite favorecem o desenvolvimento do cérebro.

Para saber mais:

Reynolds E, et al. Effects of breast milk consumption in the first month of life on early brain development in premature infants. Abstract presented at the Pediatric Academic Societies 2016 meeting, May 3, 2016.

Ball G, Boardman JP, Aljabar P, Pandit A, Arichi T, Merchant N, Rueckert D, Edwards AD, Counsell SJ. The influence of preterm birth on the developing thalamocortical connectome. Cortex, 49(6):1711-21, 2013.

Anúncios

O vírus zika e a epidemia de microcefalia no Brasil

Siga o TUDO SOBRE CONTROLE NEURAL no facebookno instagram e no twitter

Por Laiali Chaar

Figura 1Imagem de ressonância magnética de um encéfalo de um recém-nascido com encéfalo com tamanho esperado (esquerda) e de um com microcefalia (direita). 

           Microcefalia é uma condição congênita rara. Nela, o cérebro e o crânio são menores do que o esperado para a idade do feto ou do bebê. Ela é causada por uma alteração genética ou por substâncias tóxicas como drogas ou radiação ou infecções que interferem no desenvolvimento cerebral. Essa diminuição do cérebro pode causar uma série de déficits neurológicos, cognitivos e motores, e retardo mental. Em Agosto deste ano, a Neuropediatra brasileira  Vanessa Van der Linden Mota percebeu um aumento de vinte vezes no número de casos de microcefalia e alertou colegas e a Secretaria de Saúde. A investigação dela começou por causa de um caso de gêmeos em que um dos bebês nasceu normal e o outro com sequelas de uma infecção grave transmitida pela mãe. Foram feitos exames para citomegalovírus, sífilis, toxoplasmose e rubéola, que costumam ser responsáveis por alguns dos casos de microcefalia, porém todos foram negativos. A prova da relação entre o vírus zika e a epidemia de microcefalia foi descoberta quando a obstetra Adriana Meloa colheu o líquido amniótico de duas pacientes que estavam grávidas de bebês com microcefalia e nele foi encontrado o material genético do zika vírus. Além disso, havia zika vírus no sangue de um bebê do Ceará com microcefalia que acabou morrendo. Assim descobriu-se que a epidemia brasileira de microcefalia está ligada a infecção do zika vírus na mãe, o que já foi  inclusive confirmado pelo Ministério da Saúde e Organização Mundial de Saúde no dia 28 de novembro. Agora está sendo investigada uma possível relação do zika vírus com a síndrome de Guillain-Barré, uma doença neurológica.

         A confirmação da relação entre o vírus e a microcefalia é inédita na ciência mundial. E ainda não existem trabalhos científicos publicados sobre isso. Como a epidemia de microcefalia é muito recente, ainda há diversas dúvidas no ar: como o vírus atua no organismo e infecta o feto, quais mecanismos levam à microcefalia, o risco do vírus atravessar a placenta é alto ou baixo e qual o período de maior vulnerabilidade para a gestante. Em uma análise inicial do Ministério da Saúde, o risco está associado aos primeiros três meses de gravidez. A hipótese é de que o zika vírus invade a placenta, entra na corrente sanguínea do feto e vai direto para o cérebro, para infectar os neurônios. Ali, o vírus se multiplicaria provocando uma inflamação que retarda a multiplicação dos neurônios e prejudica a formação do cérebro da criança

           O vírus foi identificado pela primeira vez em 1947 em um macaco rhesus na floresta Zika, da Uganda, e por isso tem esse nome (não, não é pela zica dos danos que provoca). No Brasil, ele foi identificado pela primeira vez este ano, em Abril. Não existem vacinas para o vírus zika. Então, a única maneira de combater o zika vírus, dengue e chikungunya é acabando com o vetor, o mosquito Aedes aegypti, evitando acumular água parada em pneus, garrafas e vasos de plantas. Em caso da detecção de focos de mosquito que o morador não possa eliminar, é importante acionar a Secretaria Municipal de Saúde do município. Há indícios ainda de que fluidos corporais, como o sêmen, o sangue e o próprio leite materno também possam propagar o vírus zika, mas nada confirmado. E, por enquanto, a indicação médica é para que mulheres grávidas se protejam contra picadas: evitem horários e lugares com presença de mosquitos, usem roupas que protejam a maior parte do corpo, usem um repelente adequado e permaneçam em locais com barreiras para entrada de insetos como telas de proteção ou mosquiteiros. Além disso, é muito importante que relatem ao seu médico qualquer alteração em seu estado de saúde e que realizem o pré-natal para investigar microcefalia no feto através da ultrassonografia.

Atualização em 01/04/2016: A Organização da Saúde confirmou a relação entre o vírus da Zika e microcefalia nessa semana. Foram publicados alguns trabalhos científicos confirmando a relação do vírus Zika com microcefalia. Agora isso é um consenso científico.Cientistas encontraram o vírus no cérebro de bebês afetadas com microcefalia e agora um artigo foi publicado demonstrando que a infecção por vírus Zika aumenta a chance de nascimentos de bebês com microcefalia. A questão ainda sem resposta é seria o Zika realmente o culpado pelo aumento dos casos de microcefalia? E se eu pegar uma infecção de Zika durante a gravidez, quais são as chances de que meu bebê vai ser afetadoAtualmente, o vírus Zika está circulando em 33 países, nas Américas e infectou centenas de milhares de pessoas.

📷 Crédito da imagem: adaptada da assessoria de imprensa da Universidade de Yale.

Para saber mais:

Mishra-Gorur K, Çağlayan AO, Schaffer AE, Chabu C, Henegariu O, Vonhoff F, Akgümüş GT, Nishimura S, Han W, Tu S, Baran B, Gümüş H, Dilber C, Zaki MS, Hossni HA, Rivière JB12, Kayserili H, Spencer EG, Rosti RÖ, Schroth J, Per H, Çağlar C, Çağlar Ç, Dölen D, Baranoski JF,Kumandaş S, Minja FJ, Erson-Omay EZ, Mane SM, Lifton RP, Xu T, Keshishian H, Dobyns WB, Chi NC, Šestan N1, Louvi A, Bilgüvar K, Yasuno K, Gleeson JG, Günel M. Mutations in KATNB1 cause complex cerebral malformations by disrupting asymmetrically dividing neural progenitors. Neuron, Dezembro, 2014.

Pobreza na infância prejudica o desenvolvimento do cérebro

Siga o TUDO SOBRE CONTROLE NEURAL no facebookno instagram e no twitter

Por Laiali Chaar

romanian children

      Hoje é comemorado o dia das crianças no Brasil, mas talvez o mundo não tem muito o que comemorar. Qual a diferença entre esses dois cérebros? Os dois são de crianças com a mesma idade. Mas por que o primeiro está muito mais vermelho e colorido? O vermelho significa massa cerebral e ativação neuronal. A diferença é que a criança da direita que tem um encéfalo menor e menos ativado vive na pobreza. Já é bem conhecido que a pobreza nos primeiros anos de vida está associada a baixo desempenho escolar, mas dois estudos publicados neste ano associaram a pobreza à diferenças no desenvolvimento da estrutura do cérebro. Crianças pobres tem um cérebro menor, que será menor para sempre, menos substância branca e cinzenta em áreas como o lobo temporal e lobo frontal, que são áreas do córtex cerebral, e o hipocampo. Estas áreas cerebrais, criticas para o raciocínio e necessárias para o sucesso acadêmico, são vulneráveis ao ambiente em que a criança se desenvolve. De acordo com a UNICEF, a pobreza cresce a cada ano no mundo e hoje uma a cada cinco crianças no mundo vive na pobreza. Uma intervenção política efetiva é urgente.

Crédito da foto: PhD Vincent Felitti

Para saber mais:

Noble KG, Houston SM, Brito NH, Bartsch H, Kan E, Kuperman JM, Akshoomoff N, Amaral DG, Bloss CS, Libiger O, Schork NJ, Murray SS,Casey BJ, Chang L, Ernst TM, Frazier JA, Gruen JR, Kennedy DN, Van Zijl P, Mostofsky S, Kaufmann WE, Kenet T, Dale AM, Jernigan TL, Sowell ER. Family income, parental education and brain structure in children and adolescents. Nat Neurosci. 2015.18(5):773-8. 2015 Mar 30.

Hair NL, Hanson JL, Wolfe BL, Pollak SD. Association of Child Poverty, Brain Development, and Academic Achievement. JAMA Pediatr. Sep 1;169(9):822-9. 2015.

Sheridan MA, Fox NA, Zeanah CH, McLaughlin KA, Nelson CA. Variation in neural development as a result of exposure to institutionalization early in childhood. Proc Natl Acad Sci U S A. Aug 7;109(32):12927-32. 2012.

Dube SR, Felitti VJ, Dong M, Giles WH, Anda RF. The impact of adverse childhood experiences on health problems: evidence from four birth cohorts dating back to 1900. Prev Med. 2003 Sep;37(3):268-77.