Retrospectiva 2015: 10 coisas fascinantes que aprendemos sobre a mente em 2015

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Por Laiali Chaar

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Tomografia de encéfalo com Alzheimer. A cor vermelha mostra o fluxo sanguíneo máximo, o verde-amarelo indica menor fluxo de sangue, enquanto áreas em roxo, azul e verde escuro indicam nenhum fluxo. Jonathan Selig via Getty Images.

Muitos estudos interessantes foram publicados sobre a mente em 2015 desvendando mais alguns mistérios do nosso cérebro. Para começar 2016 listei dez descobertas fascinantes sobre o cérebro feitas em 2015. Aí estão elas:

1. Se for teclar não beba, se for beber não tecle

Hoje você esbarrou em alguém na rua? Esqueceu algo em casa? Esqueceu de um compromisso?

Se você respondeu sim a qualquer uma destas perguntas, há uma boa chance de  você estar gastando muito tempo olhando seu celular. Em nosso estilo de vida atual passamos muito tempo olhando a tela de nosso smartphone. Cientistas descobriram que enquanto usamos um smartphone na rua temos o mesmo padrão de caminhada que o andar de um bêbado por causa da desatenção que o celular gera. Além disso, quando seu celular vibra, isso já é suficiente para diminuir sua produtividade no trabalho ou nos seus estudos. Usuários de smartphones também tem maior chance de terem perdas de memória e tem menor capacidade de foco tendo como consequência esquecer compromissos, perder coisas e andar em direção às pessoas enquanto usam o smartphone.  A tecnologia é maravilhosa para facilitar nossas vidas, mas existe um limite saudável para seu uso para manter nossas capacidades cognitivas de memória e raciocínio.

Para saber mais: Artigo 1 e Artigo 2.

2. Poluição é pior para o cérebro do que achávamos

Uma pesquisa mostrou que a poluição do ar pode acelerar o envelhecimento cerebral e contribuir para o desenvolvimento de doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson. Esse estudo mostrou que aumentos pequenos na concentração de poluição são associados com diminuição da substância branca cerebral. A substância branca é importante por possuir células que sustentam e fazem o isolamento elétrico e nutrição dos neurônios. É como se a poluição derretesse o cérebro. Isso sugere que a poluição pode ser a causa mais agressiva de doenças cerebrais que já foi descoberta.

Para saber mais: Artigo 1, Artigo 2 e Artigo 3

3. O vírus zika e a sua relação com a epidemia de microcefalia no Brasil

Microcefalia é uma condição congênita rara em que o cérebro e o crânio são menores do que o esperado causada por alteração genética ou por substâncias tóxicas como drogas, radiação ou infecções que interferem no desenvolvimento cerebral. Ela causa déficits neurológicos, cognitivos e motores, e retardo mental. Em Agosto houve um aumento de vinte vezes nos casos de microcefalia no Brasil. A relação entre o vírus zika e a epidemia de microcefalia, inédita na ciência mundial, foi descoberta quando foi encontrado o vírus no sangue de um bebê com microcefalia. Isso já foi confirmado pelo Ministério da Saúde e Organização Mundial de Saúde em Novembro. Essa relação ainda precisa ser confirmada porque ainda não existem trabalhos científicos publicados sobre isso e há dúvidas no ar sobre quais mecanismos levam à microcefalia. Mas, foram feitas diversas observações de casos que sugerem essa relação entre o vírus zika e microcefalia. Ainda não existem vacinas para o vírus então, a única maneira de combatê-lo é acabando com o vetor, o mosquito Aedes aegypti, evitando acumular água parada e mulheres grávidas devem se proteger contra picadas com repelentes, telas de proteção ou mosquiteiros.

Para saber mais: Artigo

Atualização em 01/04/2016: A Organização da Saúde confirmou a relação entre o vírus da Zika e microcefalia nessa semana. Foram publicados alguns trabalhos científicos confirmando a relação do vírus Zika com microcefalia. Agora isso é um consenso científico.Cientistas encontraram o vírus no cérebro de bebês afetadas com microcefalia e agora um artigo foi publicado demonstrando que a infecção por vírus Zika aumenta a chance de nascimentos de bebês com microcefalia. A questão ainda sem resposta é seria o Zika realmente o culpado pelo aumento dos casos de microcefalia? E se eu pegar uma infecção de Zika durante a gravidez, quais são as chances de que meu bebê vai ser afetadoAtualmente, o vírus Zika está circulando em 33 países, nas Américas e infectou centenas de milhares de pessoas.

4. Apagar memórias pode ser o futuro dos tratamentos para os vícios

Cientistas apagando ou transplantando memórias no cérebro não são mais apenas coisa de filmes ou séries de ficção científica. Apagar a memória em breve poderá ser uma realidade. Uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Scripps publicada na revista Molecular Psychiatry identificou uma nova droga, a blebbistatina, que com apenas uma dose tem o potencial para apagar seletivamente memórias de vício em pessoas viciadas em drogas deixando outras memórias intactas. Isso poderia nos ajudar a tratar melhor a dependência química por apagar as memórias relacionadas com os efeitos prazerosos da droga e recaída bloqueado por pelo menos um mês.

Para saber mais: Artigo

5. Para melhorar seu humor, mude suas bactérias

A comunicação entre intestino-cérebro foi outro tema importante na Neurociência nos últimos anos. Em 2015, pesquisadores descobriram que o equilíbrio das bactérias saudáveis no intestino pode ajudar a diminuir a ansiedade e os sintomas da depressão. De acordo com uma pesquisa publicada na revista Nature, o estresse altera a microbiota (ou flora) intestinal e pode causar ansiedade e depressão em camundongos. Isso porque esta alteração na microbiota intestinal ativa a liberação de neurotransmissores no hipotálamo, que em excesso, levam à ansiedade e depressão. Uma dieta com excesso de gordura também pode alterar a microbiota da mesma maneira. Por outro lado, outro estudo mostrou que as pessoas que têm mais alimentos fermentados em sua dieta, que são repletos de bactérias saudáveis conhecidas como probióticas, apresentam menos neuroses e ansiedade social. É fascinante que microrganismos tão pequenos em seu intestino podem influenciar sua mente.

Para saber mais: Artigo 1, Artigo 2Artigo 3 e Artigo 4

6. Um bom sono é essencial para uma vida emocional saudável

Já foi bem demonstrado nas pesquisas que um bom sono é fundamental para o bem-estar psicológico. Também já foi bem demonstrado que a privação do sono, por outro lado, aumenta os níveis de estresse e é associada com ansiedade, depressão  e outros problemas de saúde mental. Além disso, em 2015 foi descoberto que a falta de sono poderia alterar nossa inteligência emocional. Um estudo marcante da Neurociência publicado em Julho do ano passado no Journal of Neuroscience descobriu que um bom sono também é muito importante para manter a inteligência emocional. Os pesquisadores mostraram que não ter um sono adequado diminui nossa capacidade de ler expressões faciais, que é um componente-chave para entender as emoções de quem nos relacionamos.

Para saber mais: Artigo

7. A natureza deixa a mente sadia

Você já deve ter percebido que caminhar na natureza te deixa mais tranquilo. A Neurociência já sabia que passar tempo ao ar livre traz benefícios significativos para a saúde física e mental. Mas ano passado, os pesquisadores descobriram que os benefícios psicológicos dados pela natureza são ainda maiores do que imaginávamos. Uma pesquisa feita na Universidade de Stanford publicada em Julho de 2015 descobriu que passeios ao ar livre reduzem os pensamentos negativos obsessivos que caracterizam a depressão. Outro estudo publicado no fim do ano passado descobriu que passar um tempo na natureza também pode ter aplicações no tratamento para a dependência química com redução da  impulsividade e melhor auto-controle o que seria fantástico.

Para saber mais: Artigo 1 e Artigo 2

8. Alzheimer pode ser transmissível

É possível transmitir a doença de Alzheimer de uma pessoa para outra, de acordo com um estudo publicado ontem na revista Nature feito por cientistas da University College de Londres. Você não pode pegar a doença de Alzheimer por cuidar de alguém com a doença de Alzheimer. Mas, a transmissão pode ocorrer em situações inusitadas envolvendo contato direto com o tecido cerebral como em neurocirurgias através de material cirúrgico contaminado. A contaminação faz com que haja deposição de proteína beta-amilóide que causa Alzheimer no cérebro da outra pessoa afetando ao longo dos anos a memória e o raciocínio.

Para saber mais: Artigo 

9. É possível prever que uma pessoa terá Parkinson pelo odor de seu suor

Parkinson é uma doença neurodegenerativa progressiva marcada por tremor e dificuldades de movimentos. Seis anos antes do marido da senhora inglesa Joy Milne ser diagnosticado com Parkinson ela percebeu que ele passou a ter um cheiro diferente e almiscarado. Ela só relacionou esse odor ao Parkinson após visitar uma instituição onde conheceu mais pessoas com a doença que tinham o mesmo odor que seu marido. Em testes feitos por pesquisadores com camisetas de pessoas com ou sem a doença ela acertou 11 entre 12. Uma possível explicação é que o sebo, um óleo que lubrifica e impermeabiliza a pele, é quimicamente alterado em pessoas com Parkinson produzindo um odor único que pode ser percebido por algumas pessoas que tem um olfato poderoso, como ela. Graças a senhora Joy, pesquisadores do Instituto de Biotecnologia de Manchester e da Fundação Parkinson UK estão investigando se algum teste de odor da pele poderia detectar o Parkinson precocemente o que seria uma esperança para milhares de pessoas.

Para saber mais: Artigo

10. Os cientistas descobriram a fonte da juventude (pelo menos no cérebro)

Cientistas encontraram uma maneira de reverter o envelhecimento dos neurônios. Camundongos idosos receberam uma transfusão de sangue de jovens. Um grupo de pesquisadores da Universidade de Stanford na Califórnia queria saber qual o efeito disso sobre o cérebro, estudou isso e publicou os resultados na Revista Nature. Com o envelhecimento, os neurônios perdem suas conexões e começam a morrer até que, por fim, o cérebro encolhe e torna-se menos eficaz. Uma região chamada hipocampo, crucial para memória e aprendizagem, é uma das primeiras áreas do cérebro a se deteriorar com a idade, causando falhas na memória e no raciocínio. Mas, camundongos velhos que receberam sangue jovem tiveram uma explosão no crescimento de #neurônios no #hipocampo. Eles tinham de três a quatro vezes mais neurônios do que camundongos idosos que não receberam transfusão como muitos camundongos recém-nascidos. Esta descoberta é uma esperança para o tratamento de doenças neurodegenerativas relacionadas a idade em que há morte neuronal como Parkinson e Alzheimer. Então, Drácula estava certo, o sangue de jovens pode ser a fonte eterna da juventude.

Para saber mais: Artigo

Essas foram algumas descobertas fascinantes da Neurociência em 2015. Vamos aguardar pelas descobertas interessantes em 2016. E você poderá ler sobre elas aqui no Tudo sobre controle.

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O vírus zika e a epidemia de microcefalia no Brasil

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Por Laiali Chaar

Figura 1Imagem de ressonância magnética de um encéfalo de um recém-nascido com encéfalo com tamanho esperado (esquerda) e de um com microcefalia (direita). 

           Microcefalia é uma condição congênita rara. Nela, o cérebro e o crânio são menores do que o esperado para a idade do feto ou do bebê. Ela é causada por uma alteração genética ou por substâncias tóxicas como drogas ou radiação ou infecções que interferem no desenvolvimento cerebral. Essa diminuição do cérebro pode causar uma série de déficits neurológicos, cognitivos e motores, e retardo mental. Em Agosto deste ano, a Neuropediatra brasileira  Vanessa Van der Linden Mota percebeu um aumento de vinte vezes no número de casos de microcefalia e alertou colegas e a Secretaria de Saúde. A investigação dela começou por causa de um caso de gêmeos em que um dos bebês nasceu normal e o outro com sequelas de uma infecção grave transmitida pela mãe. Foram feitos exames para citomegalovírus, sífilis, toxoplasmose e rubéola, que costumam ser responsáveis por alguns dos casos de microcefalia, porém todos foram negativos. A prova da relação entre o vírus zika e a epidemia de microcefalia foi descoberta quando a obstetra Adriana Meloa colheu o líquido amniótico de duas pacientes que estavam grávidas de bebês com microcefalia e nele foi encontrado o material genético do zika vírus. Além disso, havia zika vírus no sangue de um bebê do Ceará com microcefalia que acabou morrendo. Assim descobriu-se que a epidemia brasileira de microcefalia está ligada a infecção do zika vírus na mãe, o que já foi  inclusive confirmado pelo Ministério da Saúde e Organização Mundial de Saúde no dia 28 de novembro. Agora está sendo investigada uma possível relação do zika vírus com a síndrome de Guillain-Barré, uma doença neurológica.

         A confirmação da relação entre o vírus e a microcefalia é inédita na ciência mundial. E ainda não existem trabalhos científicos publicados sobre isso. Como a epidemia de microcefalia é muito recente, ainda há diversas dúvidas no ar: como o vírus atua no organismo e infecta o feto, quais mecanismos levam à microcefalia, o risco do vírus atravessar a placenta é alto ou baixo e qual o período de maior vulnerabilidade para a gestante. Em uma análise inicial do Ministério da Saúde, o risco está associado aos primeiros três meses de gravidez. A hipótese é de que o zika vírus invade a placenta, entra na corrente sanguínea do feto e vai direto para o cérebro, para infectar os neurônios. Ali, o vírus se multiplicaria provocando uma inflamação que retarda a multiplicação dos neurônios e prejudica a formação do cérebro da criança

           O vírus foi identificado pela primeira vez em 1947 em um macaco rhesus na floresta Zika, da Uganda, e por isso tem esse nome (não, não é pela zica dos danos que provoca). No Brasil, ele foi identificado pela primeira vez este ano, em Abril. Não existem vacinas para o vírus zika. Então, a única maneira de combater o zika vírus, dengue e chikungunya é acabando com o vetor, o mosquito Aedes aegypti, evitando acumular água parada em pneus, garrafas e vasos de plantas. Em caso da detecção de focos de mosquito que o morador não possa eliminar, é importante acionar a Secretaria Municipal de Saúde do município. Há indícios ainda de que fluidos corporais, como o sêmen, o sangue e o próprio leite materno também possam propagar o vírus zika, mas nada confirmado. E, por enquanto, a indicação médica é para que mulheres grávidas se protejam contra picadas: evitem horários e lugares com presença de mosquitos, usem roupas que protejam a maior parte do corpo, usem um repelente adequado e permaneçam em locais com barreiras para entrada de insetos como telas de proteção ou mosquiteiros. Além disso, é muito importante que relatem ao seu médico qualquer alteração em seu estado de saúde e que realizem o pré-natal para investigar microcefalia no feto através da ultrassonografia.

Atualização em 01/04/2016: A Organização da Saúde confirmou a relação entre o vírus da Zika e microcefalia nessa semana. Foram publicados alguns trabalhos científicos confirmando a relação do vírus Zika com microcefalia. Agora isso é um consenso científico.Cientistas encontraram o vírus no cérebro de bebês afetadas com microcefalia e agora um artigo foi publicado demonstrando que a infecção por vírus Zika aumenta a chance de nascimentos de bebês com microcefalia. A questão ainda sem resposta é seria o Zika realmente o culpado pelo aumento dos casos de microcefalia? E se eu pegar uma infecção de Zika durante a gravidez, quais são as chances de que meu bebê vai ser afetadoAtualmente, o vírus Zika está circulando em 33 países, nas Américas e infectou centenas de milhares de pessoas.

📷 Crédito da imagem: adaptada da assessoria de imprensa da Universidade de Yale.

Para saber mais:

Mishra-Gorur K, Çağlayan AO, Schaffer AE, Chabu C, Henegariu O, Vonhoff F, Akgümüş GT, Nishimura S, Han W, Tu S, Baran B, Gümüş H, Dilber C, Zaki MS, Hossni HA, Rivière JB12, Kayserili H, Spencer EG, Rosti RÖ, Schroth J, Per H, Çağlar C, Çağlar Ç, Dölen D, Baranoski JF,Kumandaş S, Minja FJ, Erson-Omay EZ, Mane SM, Lifton RP, Xu T, Keshishian H, Dobyns WB, Chi NC, Šestan N1, Louvi A, Bilgüvar K, Yasuno K, Gleeson JG, Günel M. Mutations in KATNB1 cause complex cerebral malformations by disrupting asymmetrically dividing neural progenitors. Neuron, Dezembro, 2014.