A Neurociência das provas

Siga o TUDO SOBRE CONTROLE NEURAL no facebookno instagram e no twitter

 

Por Laiali Chaar

Geissler et al 2013.jpgFonte da Imagem: Geissler et al., 2013, neurônio do hipocampo, principal área do cérebro responsável pela memória.

         O post de hoje é em homenagem aos meus alunos que irão prestar ENADE amanhã. Desejo toda a sorte do mundo para vocês 🍀🍀💚! Vocês são muito especiais para mim!Você tem uma hora sobrando antes da prova do ENADE… O que você faz? Revisa para decorar algo ou tira um cochilo?

       Um estudo apresentado na terça feira no Congresso Mundial de Neurociência em San Diego sugere que tirar um cochilo de uma hora antes da prova é tão eficaz quanto uma revisão. Isso acontece porque o cochilo reativa a memória daquilo que você já estudou. Só tome cuidado para não perder a hora 😊. Um estudo feito na Universidade de Los Angeles com 500 pessoas mostrou que decorar na última hora não é bom porque te deixa estressado.

     Ouvir uma música que você goste 15 minutos antes da prova também melhora seu raciocínio. Isso é conhecido como o “efeito Mozart” ou “efeito Blur” 🎻

      Outra neurodica é caminhar. Uma pesquisa feita na Universidade de Illinois mostrou que caminhar 20 minutos antes da prova aumenta a nota. Isso acontece porque a caminhada aumenta a circulação e a chega de nutrientes nos neurônios nas mesmas áreas do raciocínio lógico.

         Tire um cochilo de uma hora, ouça Mozart e depois caminhe 20 minutos. E o que mais? Não existem receitas do que fazer no dia anterior da prova que servem para todos. Somos muito diferentes, mas algumas dicas são comprovadas pela Neurociência:

– Faça uma boa refeição hoje para se sentir mais feliz. Lasanha, macarronada, rodízio e outros carboidratos são boa opção para hoje, mas não para amanhã porque são pesados e causam sono;

– Fique com seus familiares, amigos e pessoas agradáveis, isso vai te deixar mais feliz e confiante;

– Evite álcool e não tome remédios para dormir. Eles diminuem a concentração e alteram o sono. Você dorme, mas não descansa;

– Dormir bem é fundamental para guardar as memórias. Então, durma em um ambiente silencioso, escuro sem TV ou celular brilhando e pelo tempo suficiente para descansar;

– Pense hoje o que irá fazer se não souber uma questão? Pular? Refletir sobre isso te ajuda a não ser surpreendido e diminui a ansiedade;

– Não tome café, guaraná ou energéticos. Eles te deixarão ansioso e menos concentrado. Se sentir sono amanhã tome banho ou faça uma caminhada; – Antes da prova, mesmo sem fome por causa do nervosismo, coma algo. Nutrientes são importantes para o raciocínio;

– Antes da prova coma alimentos leves com pouca gordura e ricos em proteínas como: ovos, nozes, iogurte, etc;

= Controle as emoções. A ansiedade diminui a memória, concentração e a capacidade de interpretação. Confie no seu taco, pense que se a prova está difícil, está difícil para todos e que irá fazer seu melhor;

– Responda primeiro as questões fáceis;

– Beba bastante água antes e durante a prova. A desidratação afeta a concentração;

– Vocês são guerreiros, passaram por tanta coisa, histórias lindas de vida, venceram tudo e chegaram até aqui. Lembrem hoje de todas as dificuldades que enfrentaram com coragem. Tenho certeza que amanhã no ENADE isso só irá se confirmar mais uma vez. Boa prova! Amo vocês!

Para saber mais:

Geissler M, Gottschling C, Aguado A, Rauch U, Wetzel CH, Hatt H, Faissner A. Primary hippocampal neurons, which lack four crucial extracellular matrix molecules, display abnormalities of synaptic structure and function and severe deficits in perineuronal net formation. J Neurosci, 1;33(18):7742-55, 2013.

Hennies N, Lambon Ralph MA, Kempkes M, Cousins JN, Lewis PA. Sleep Spindle Density Predicts the Effect of Prior Knowledge on Memory Consolidation. J Neurosci., 30;36(13):3799-810, 2016

Hillman CH, Pontifex MB, Raine LB, Castelli DM, Hall EE, Kramer AF.The effect of acute treadmill walking on cognitive control and academic achievement in preadolescent children. Neuroscience, 31;159(3):1044-54, 2009.

Leonid Perlovsky. Cognitive Function of Music and Meaning-Making. Journal of Biomusical Engineering. 2016

Anúncios

Água, o desintoxicante mais poderoso que existe

gota_de_agua3

      É muito comum encontrar pessoas, talvez você próprio seja uma delas, que ficam muito tempo sem tomar água ou dizem que não sentem sede. Na infância, 75% do peso do corpo é composto por água e na idade adulta mais de 50%. A água é essencial para a vida. A prova disso é que podemos sobreviver apenas de 3 a 5 dias sem beber água. Isso acontece porque a água tem funções importantes para manter o funcionamento normal do corpo humano. Algumas delas são ser meio de transporte de nutrientes e oxigênio, hormônios e gases às células; termorregulação através do suor e auxiliar no amortecimento do impacto nos ossos. A água também melhora nosso sistema imunológico pois ajuda no transporte do ferro que é importante para manter a ação das células de defesa. Além disso, a água ajuda a eliminar através da urina e fezes metabólitos que em excesso são considerados toxinas. Se você ingerir fibras e não tomar água elas não poderão agir absorvendo a gordura em excesso da alimentação. Todas essas funções da água geram um ambiente celular adequado para reações químicas e por isso a água é o melhor desintoxicante que existe. Por isso, uma boa hidratação interfere até em componentes físicos externos como, por exemplo, unhas e cabelos.

    A desidratação gera um estresse celular prejudicando o funcionamento adequado do corpo. Em um primeiro momento, as mucosas como a da boca secam. Com a piora da desidratação, aumenta a chance de surgimento de doenças ligadas ao ressecamento da pele, cálculos renais por acúmulo de cristais no rim, perda de cabelo, dores musculares e até mesmo (pasmem!) hipertensão. Desidratação extrema gera complicações neurológicas incluindo confusão, distúrbios neurosensitivos e convulsões. A desidratação está associada com maior morbidade, mortalidade e dependência em idosos. Tudo isso mostra a importância de uma hidratação adequada em nossas vidas.

    Ao longo da evolução, a desidratação tem sido um dos mais frequentes e potenciais ameaças à vida e um grande desafio para a homeostase. O organismo é capaz de regular de maneira muito eficiente o balanço diário de água. Assim, em uma pessoa saudável, a quantidade ingerida ao longo do dia sempre corresponde à quantidade eliminada. Isso é possível devido a mecanismos sofisticados de controle em que o cérebro participa.

Mas, como o balanço de água é controlado? Qual parte do corpo humano é capaz de detectar hidratação?

    A desidratação das células é sinalizada ao cérebro mostrando que precisamos nos reidratar e isso gera a sensação de sede. Os mamíferos desenvolveram respostas comportamentais e fisiológicas sofisticadas para regular o conteúdo de água diante das mudanças. As respostas comportamentais regulam  a ingestão de sal e água através de alterações no apetite e na sede. As respostas fisiológicas ajustam a excreção renal de água e sódio através de alterações na liberação de hormônios.

    Há sensores do estado de hidratação localizadas em áreas com localização estratégica, como na veia hepática, o que permite a detecção da quantidade de água nos alimentos e fluidos. A alteração do volume de água sistêmico é detectada no sistema nervoso central  em regiões do encéfalo que incluem: a área pré-óptica, o núcleo pré-óptico medial, o órgão vasculoso da lâmina terminal, o órgão subfornical e o núcleo supra-óptico. Esses sensores são capazes de fazer a transdução de sinais químicos em sinais elétricos que tenham significância para o sistema nervoso central. Esses neurônios ativam outras regiões cerebrais que estimulam a liberação de hormônios que controlam a excreção e a ingestão de água e sódio dentre eles a ocitocina, a vasopressina, o hormônio natriurético atrial e a angiotensina. Além disso, esses hormônios ativam circuitos de neurônios que regulam comportamentos que estimulam a busca por água.

   A desidratação pode causar hipertensão justamente por alterar a secreção destes hormônios que em excesso aumentam a pressão arterial. Devido à sua complexidade, os mecanismos pelos quais o equilíbrio hídrico é atingido pelo organismo são estudados até hoje pelos neurocientistas.

Mas, existe uma forma mais adequada para ingerir água?

   O Guia Alimentar Para a População Brasileira lançado em novembro pelo Ministério da Saúde indica que o maior consumo de água seja como água pura e água contida nos alimentos e preparações culinárias. É importante também que essa água seja potável para não causar malefícios. A água pode ser ingerida pura ou “temperada” com rodelas de limão ou folhas de hortelã, como café ou chá desde que seja com pouca ou nenhuma quantidade de açúcar.

    A maioria dos alimentos naturais ou minimamente processados tem alta quantidade de água. A maior parte das frutas e o leite contém entre 80% e 90% de água. Verduras e legumes cozidos ou em saladas tem mais do que 90% do seu peso em água. Após o cozimento, macarrão, batata ou mandioca têm por volta de 70% de água. Um prato de feijão com arroz é constituído de dois terços de água. Quando a alimentação é baseada nesses alimentos eles podem fornecer cerca de metade da água que precisamos ingerir.

     Alimentos industrializados são na maioria escassos em água para que não estraguem tão rápido e durem mais nas prateleiras. Biscoitos e salgadinhos tem menos que 5% de água em sua composição.

    Não é recomendado ingerir água em forma de refrigerantes ou sucos prontos por possuírem alta quantidade de adoçantes ou açúcares, aditivos, sódio e potássio, exigindo maior ingestão de água para eliminação do excesso destes elementos.

Mas, qual a quantidade certa de água a ser  ingerida?

      Há uma grande confusão quanto à quantidade certa para ingestão diária de água. Apesar de ser essencial para a saúde, em alguns casos, beber água em excesso ocasiona consequências negativas ao organismo, podendo levar até à morte. Um artigo com os orientações de hidratação para pessoas que praticam exercício foi elaborado por 16 especialistas de 4 países e publicado semana passada. Ele revelou os riscos de uma “super-hidratação”. A ingestão excessiva de água pode reduzir tanto o sódio plasmático, causando problemas neurológicos, como confusão, convulsões, edema cerebral e até levar à morte. Desde 1981, foram documentadas 14 mortes por “super-hidratação”. A ingestão de bebidas próprias para esporte não minimiza a “super-hidratação”,  pois ainda assim essas bebidas possui baixa quantidade de sódio.

       Como qualquer alimento, a quantidade de água que precisamos ingerir por dia é muito variável e depende de vários fatores: idade, peso, nível de atividade física e ainda clima e temperatura do ambiente em que se vive. De maneira geral, a recomendação é que qualquer adulto consuma, em média, 35 mililitros por quilograma. Para isso basta fazer uma conta simples: peso x 0,035 = X litros.  Se você for praticante de atividades físicas regulares, a ingestão de água deve ser ampliada para dissipar o aumento da temperatura corporal. Alguns maratonistas chegam a tomar 7 litros durante uma prova.

      Assim, para evitar a “super-hidratação” recomenda-se que você tome água quando sentir sede. Sempre que a água no organismo não está sendo suficiente para suprir o seu uso pelas células sentimos sede pelos mecanismos refinados de controle descritos mais acima no texto. Por isso, é importante se atentar aos sinais de sede logo e tomar água sempre que isso acontecer.

Para saber mais:

Bardgett ME, Chen QH, Guo Q, Calderon AS, Andrade MA, Toney GM. Coping with dehydration: sympathetic activation and regulation of glutamatergic transmission in thehypothalamic PVN. Am J Physiol Regul Integr Comp Physiol., 2014 1;306(11):R804-13.

Hooper L, Bunn D2, Jimoh FO3, Fairweather-Tait SJ4. Water-loss dehydration and aging. Mech Ageing Dev, 2014 136-137:50-8.

Guia alimentar da população brasileira. Ministério da Saúde, 2014. http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2014/novembro/05/Guia-Alimentar-para-a-pop-brasiliera-Miolo-PDF-Internet.pdf

McCann SM, Franci CR, Favaretto AL, Gutkowska J, Antunes-Rodrigues J. Neuroendocrine regulation of salt and water metabolism. Braz J Med Biol Res., 1997 30(4):427-41.

Mitchell H. Rosner. Preventing Deaths Due to Exercise-Associated Hyponatremia. Clinical Journal of Sport Medicine, 2015; 25 (4): 301.

Bem-vindos ao Tudo Sobre Controle Neural!

Será que estamos levando a vida de um modo equilibrado? Quer dizer, respeitando os limites do nosso corpo?

O que acontece quando não tomamos a quantidade de água necessária durante o dia? E quando não praticamos atividade física? Ou quando não dormimos? E quando ficamos em jejum?

Se a gente sabe que o excesso de gordura e sal fazem mal então por que comemos tanto? E por que chocolate é tão gostoso? E quem nunca comeu além do que precisava por estar ansioso? Ou ficou sem dormir por estar preocupado?

Por que sentimos sede? Por que sentimos dor? O que acontece no nosso organismo quando estamos apaixonados? E por que esquecemos mais quando estamos estressados?

Você sabia que é nosso cérebro que controla o equilíbrio de tudo isso? Vamos falar sobre isso?

Hoje, é o lançamento desta página aqui no facebook: TUDO SOBRE CONTROLE NEURAL. Para discutir essas e outras questões sobre Neurociência. Espero vocês por aqui!