O que o alimento faz com o seu cérebro?

Por Laiali Chaar 

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      Sempre quando pensamos na função do alimento em nossas vidas lembramos dela como uma maneira de obter energia. Mas ele afeta (e muito) o nosso cérebro. Inclusive, até a habilidade do alimento de prevenir e proteger contra  diversas doenças afetando o funcionamento encéfalo está começando a ser mostrada nas pesquisas científicas.

       Um estudo realizado este ano na Universidade de Wisconsin nos Estados Unidos mostrou que o diabetes, que é causado por uma má alimentação na maioria dos casos, está associado ao aumento do risco para o desenvolvimento de Alzheimer. Ou seja, das pessoas que possuíam Alzheimer a maioria era diabética. No Brasil 12 milhões de pessoas possuem diabetes atribuído ao moderno estilo de vida em que comemos muitos alimentos industrializados e ricos em gordura e açucares e fazemos pouca atividade física. O açúcar é a principal fonte de energia para os neurônios funcionarem. O diabetes faz com que diversas regiões do cérebro, incluindo o lobo temporal medial onde as memórias são formadas, usem menos açúcar. Neurônios usando menos açúcar significa menos neurônios funcionando e formando memórias. Outro estudo científico mostrou que crianças que tem uma alimentação equilibrada, especialmente rica em fibras, possuem uma melhor performance em testes de QI.

      Estudos  também mostram que uma dieta equilibrada aumenta a longevidade, ou seja os anos de vida, de ratos em 50%. O efeito de uma dieta equilibrada na longevidade ainda não foi estudado em humanos. Mas, estudos mostraram que homens e mulheres que têm uma dieta equilibrada (com vegetais, frutas, ovos, nozes, peixes, aves, produtos com baixo teor de gordura, grãos e feijão) comparados com pessoas que tem uma dieta ocidental (rica em calorias vazias, gorduras, sal e fast-foods) tem menor incidência de doenças cardiovasculares que são a maior causa de mortes no Brasil e no mundo. Isso acontece também por causa do seu encéfalo sabia? Incrível, não!? Mas como o encéfalo afeta o desenvolvimento de doenças cardiovasculares? Há regiões no encéfalo (cérebro e tronco encefálico) que controlam a pressão arterial e frequência cardiaca. Essas regiões fazem isso por uma rede de neurônios que controla os órgãos do corpo: o sistema nervoso autônomo. O sistema nervoso autônomo é formado por simpático e parassimpático. O sistema nervoso simpático, quando ativado, aumenta seus batimentos cardíacos e contrai seus vasos aumentando sua pressão arterial. O sistema nervoso parassimpático diminui seus batimentos cardíacos diminuindo sua pressão arterial. Pessoas com uma dieta desequilibrada, não se sabe ainda porque, tem um aumento do sistema nervoso simpático e uma diminuição do sistema nervoso parassimpático, além do que é esperado em um organismo em equilíbrio. Esse desequilíbrio entre simpático e parassimpatico aumenta as chances de hipertensão, infarto  do miocárdio e acidente vascular encefálico. Assim, esse estudo mostrou que uma dieta equilibrada tem o mesmo efeito benéfico no sistema cardiovascular que uma classe de medicamentos usados para o tratamento de doenças cardiovasculares, os beta bloqueadores. Maravilhoso, não!?

   Uma dieta que é rica em Ômega‑3, um ácido graxo, está conquistando o amor de vários médicos e nutricionistas por ser cientificamente comprovado que auxilia nos processos cognitivos. Processos cognitivos são os processos que geram nossas idéias, raciocínios e pensamentos. Além disso, o Ômega-3 estimula a expressão de genes que produzem proteínas importantes para a comunicação e plasticidade dos neurônios. Óleo de peixe, que é rico em Ômega-3,  diminui sintomas de esquizofrenia, um transtorno mental em que a pessoa tem dificuldade entre separar o que é real e o que é imaginário.

      Muitos alimentos podem melhorar a condição do seu encéfalo e retardar o declínio natural do envelhecimento. Curcumina, um componente do açafrão, melhora a cognição de ratos com Alzheimer. Comer pimenta três ou mais vezes por semana faz você viver de 14% a 22% mais anos. (Os mexicanos devem viver bastante então.) Flavonóides, antioxidantes encontrados no coco, no chá-verde, nas frutas cítricas, no vinho e no chocolate amargo, e a vitamina D, presente no fígado de peixe, peixes gordos, cogumelos, derivados de leite, leite de soja, grãos e cereais, melhoram a função cognitiva em idosos, retardando o envelhecimento do cérebro. A gordura saturada, presente na manteiga, na banha de porco, no óleo de palma, no queijo, na carne e no óleo leva a um declínio cognitivo em ratos que tiveram traumatismo craniano e em idosos e a vitamina E leva à uma melhora. O complexo de vitamina B, principalmente a B6, tem efeitos benéficos na memória de mulheres em diferentes idades. A colina encontrada na gema do ovo, carne de soja, frango, vitela, peru, fígado e alface, melhora crises de convulsão e a cognição. Zinco, presente em ostras, feijão, nozes, amêndoas, cereais integrais e girassol, diminui o declínio cognitivo característico da idade. O declínio cognitivo em pacientes com Alzheimer está relacionando com baixo cobre que é encontrado em ostras, fígado bovino/cordeiro, castanha-do-pará, cacau, e pimenta do reino. Ferro, encontrado na carne vermelha, peixe, aves, lentilhas e feijão, melhora a função cognitiva em mulheres.

Mas como esses alimentos melhoram nossa cognição? Os efeitos dos alimentos na cognição e emoções podem começar antes da absorção do alimento pelo organismo, ativando receptores sensoriais olfativos e visuais. A ativação desses receptores pode alterar a ativação de neurônios envolvidos com a cognição. Além disso, as regiões do cérebro envolvidas na alimentação podem enviar axônios e ativar neurônios de regiões envolvidas com a função congnitiva. A leptina, um hormônio liberado pelo tecido adiposo após uma refeição, pode também chegar ao encéfalo e ativar receptores de leptina em regiões como o hipocampo e o hipotálamo e influenciar a aprendizagem e a memória. Sinais viscerais de receptores de nutrientes localizados no estômago e no intestino também podem modular a cognição. Neurônios do hipotálamo, uma região do encéfalo importante para muitos comportamentos fundamentais para a manutenção da vida, também inervam densamente o timo e podem ativar o sistema imunológico após uma refeição.  O intestino também apresenta inervação parasimpática e pode fornecer informações através do nervo vago por neurônios que chegam ao encéfalo e influenciar as emoções.  Inclusive, estão sendo testados métodos de estimulação do nervo vago para tratar a depressão crônica. A influência do microambiente intestinal em nossas emoções já foi tema de outro post do site.

     Agora, imagine o que acontece no seu cérebro quando você come uma colher de brigadeiro ou outro alimento que contenha açúcar. Cabe a seu cérebro decidir se repitirá outra colherada ou não. O neurotransmissor do sistema de recompensa, isto é, o sistema que faz com que nós desejemos repetir uma ação, é a dopamina. Há muitos receptores de dopamina no encéfalo. Esses receptores não estão igualmente distribuídos. Algumas áreas do encéfalo contém mais receptores dopamina. E esses locais que possuem mais receptores de dopamina fazem parte das áreas de recompensa. Drogas como álcool, nicotina ou heroína aumentam violentamente a liberação de dopamina nestas áreas e fazem com que a pessoa fique, em outras palavras, viciada. O açúcar também estimula a liberação de dopamina, mas essa liberação não é tão grande como a das drogas. Nem todos os alimentos liberam dopamina. Brocólis, por exemplo, não faz com que dopamina seja liberada. Isso explica porque é tão difícil fazer as crianças comerem vegetais.

      Quando você decide comer um prato saudável o nível de dopamina aumenta. Se você decide comer o mesmo prato por vários dias os níveis de dopamina aumentam nos primeiros dias. Mas, depois começam a diminuir cada dia mais e mais. Isso porque, quando se trata de comida, o cérebro dá atenção ao que é novo, ao que tem um sabor diferente. Isso acontece por duas razões. A primeira é para que o encéfalo aprenda a identificar quando uma comida é ruim. A segunda razão é que quanto mais variedade você tiver na sua dieta mais terá os nutrientes que você precisa. Esse princípio de uma dieta variada é seguido por uma sugestão amplamente dada por nutricionistas e médicos: comer um prato colorido é mais saudável. A variedade de nutrientes que um prato te fornecerá é mostrada pelo número de diferentes cores que ele possui.

      E o que acontece se você come o mesmo prato de doce todos os dias? Nos primeiros dias há um aumento de dopamina como acontece com prato saudável. Mas se você continuar comendo a sobremesa por vários dias os níveis de dopamina não irão diminuir. A liberação de dopamina é mantida por causa da recompensa. Em outras palavras comer muito açúcar aumenta a recompensa. Nesse sentido açúcar funciona um pouco como uma droga. Por isso nós adoramos comer alimentos com açúcar. Então, toda vez que açúcar é consumido começa um efeito dominó no cérebro que faz parte do sistema de recompensa. Um alto consumo de açúcar tem um alto efeito de vício no cérebro. Mas comer um pedaço de bolo de chocolate com recheio de chocolate e cobertura de chocolate de vez em quando não irá te machucar.

Para saber mais:

Willette AA, Bendlin BB, Starks EJ, Birdsill AC, Johnson SC, Christian BT, Okonkwo OC, La Rue A, Hermann BP, Koscik RL, Jonaitis EM, Sager MA, Asthana S. Association of Insulin Resistance With Cerebral Glucose Uptake in Late Middle-Aged Adults at Risk for Alzheimer Disease. JAMA Neurol. 2015 Jul 27.

Southon S1, Wright AJ, Finglas PM, Bailey AL, Loughridge JM, Walker AD. Dietary intake and micronutrient status of adolescents: effect of vitamin and trace element supplementation on indices of status and performance in tests of verbal and non-verbal intelligence. Br J Nutr. 1994 Jun;71(6):897-918.

Stein PK, Soare A, Meyer TE, Cangemi R, Holloszy JO, Fontana L.
Caloric restriction may reverse age-related autonomic decline in humans. Aging Cell. 2012 Aug;11(4):644-50. Epub 2012 May 21.

Fontana L, Partridge L, Longo VD. Extending healthy life span–from yeast to humans. Science. 2010 Apr 16;328(5976):321-6. .

Ikeno Y, Bertrand HA, Herlihy JT. Effects of dietary restriction and exercise on the age-related pathology of the rat. Age (Omaha). 1997 Apr;20(2):107-18.

McCann JC, Ames BN. Is docosahexaenoic acid, an n-3 long-chain polyunsaturated fatty acid, required for development of normal brainfunction? An overview of evidence from cognitive and behavioral tests in humans and animals.Am J Clin Nutr. 2005 Aug;82(2):281-95.

Lv J, Qi L, Yu C, Yang L, Guo Y, Chen Y, Bian Z, Sun D, Du J, Ge P, Tang Z, Hou W, Li Y, Chen J, Chen Z, Li L; China Kadoorie Biobank collaborative group.Consumption of spicy foods and total and cause specific mortality: population based cohort study. BMJ. 2015 Aug 4;351:h3942.

Gómez-Pinilla F. Brain foods: the effects of nutrients on brain function. Nat Rev Neurosci. 2008 Jul;9(7):568-78.

http://ed.ted.com/lessons/how-sugar-affects-the-brain-nicole-avena

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Estresse altera a microbiota – Stress alters microbiota

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Por Laiali Chaar

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     De acordo com uma pesquisa publicada na revista Nature, o estresse altera a microbiota (ou flora) intestinal e pode causar ansiedade e depressão em camundongos. Isso porque esta alteração na microbiota intestinal ativa a liberação de neurotransmissores no hipotálamo, que em excesso, levam à ansiedade e depressão. Uma dieta com excesso de gordura também pode alterar a microbiota da mesma maneira.

Por que os elefantes nunca esquecem?

Por Laiali Chaar 

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   12 de Agosto foi o Dia Mundial do Elefante, por isso o site tudo sobre controle irá homenageá-los. É comum dizer que elefantes nunca se esquecem. Ou dizer que alguém tem memória de elefante. Isso é verdade? Sim, eles tem uma memória impressionante, mas a inteligência dos elefantes vai muito além da memória.  Além da impressionante memória, eles possuem uma extraordinária inteligência usada para a criatividade,  convívio social e bondade. A memória extraordinária do elefante é comprovada cientificamente.

      Há alguns exemplos de sua impressionante memória. Eles conhecem todos os membros de sua manada. São capazes de reconhecer visualmente ou pelo cheiro até 30 membros de seu grupo a distância . Isso os ajuda muito na migração ou ao se encontrar com um elefante de outra manada o que poderia resultar em uma briga.  Eles conseguem lembrar e distinguir sinais de perigo. Elefantes também tem a capacidade de voltar a locais importantes, como em um lago para beber água, muito tempo depois de sua última visita.

     Porém, sua ótima memória as vezes os prejudica. Elefantes lembram de situações em que viram outros elefantes sendo maltratados ou mortos por humanos e acabam ficando com stress pós-traumático e sofrendo.

    Mas, a sua memória que não é relacionada com sobrevivência é a mais fascinante.  Elefantes não lembram apenas de seus companheiros da mesma manada, mas também de outras criaturas que eles tiveram contato. Em um caso relatado, dois elefantes fizeram apenas uma apresentação de circo juntos, se reencontraram 23 anos depois desta apresentação e se reconheceram. Elefantes também reconhecem outras espécies como os humanos mesmo décadas depois de terem os encontrado. Esses exemplos mostram que a memória dos elefantes vai além das respostas a um estímulo perigoso.

     Olhando para o cérebro dos elefantes nós podemos entender o porque dessa memória impressionante. Elefantes tem o maior cérebro relativo ao corpo entre os mamíferos. Apesar da sua distância de nós na cadeia evolutiva seu cérebro é muito parecido com o cérebro humano. Elefantes possuem um hipocampo e um córtex cerebral muito desenvolvidos. O hipocampo é uma área do cérebro envolvida com emoção que grava experiências importantes na memória. O córtex cerebral é uma área do cérebro que auxilia na resolução de problemas. Eles são capazes de resolver problemas  como pegar uma fruta no topo de uma árvore utilizando um graveto em conjunto com outro elefante. Elefantes também tem noção de aritmética, como o número de frutas. Por exemplo, se alguém tirar algumas frutas de um cesto de frutas ele ira perceber que há menos frutas no cesto.

     A combinação de memória com resolução de problemas pode explicar muito sobre sua inteligência. Mas, não pode explicar outros fatos intrigantes sobre sua vida. Elefantes se comunicam usando sinais do corpo e vocalizações que podem ser ouvidas por outros elefantes à vários km de distância. Seus sons tem gramática e sintaxe. Esse senso de linguagem nos elefantes é muito fascinante. Elefantes também podem criar arte escolhendo cuidadosamente cores de tinta e elementos. Além disso, eles reconhecem 12 tons de música e são capazes de recriar melodias. E sim, existe uma banda de elefantes.

      Mas o mais fascinante tipo de inteligência dos elefantes é sua empatia, altruísmo e senso de justiça. O elefante é o único animal, além do humano, que faz rituais  para homenagear seus mortos. Certa vez, um elefante trabalhando em uma empresa madeireira não obedeceu seu cuidador humano que queria que ele colocasse um tronco em cima de um local onde havia um cachorro dormindo, mostrando seu senso de ética e cuidado com os outros.  Já houve relatos de elefantes que cuidaram cuidaram de outros animais e também de humanos doentes ou embriagados que encontraram.  Por outro lado, manadas de elefantes podem atacar aldeias ou cidades depois de algum homem da cidade ter matado algum elefante da manada deles sugerindo senso de justiça e vingança.

    Considerando todas essas evidências junto com o fato deles serem uma das poucas espécies que conseguem se reconhecer olhando para um espelho fica difícil escapar da conclusão que eles são inteligentes e emocionais. Infelizmente, o tratamento dos humanos com os elefantes não é reciproco. Eles continuam sofrendo com a destruição do seu habitat na Ásia, a caça para retirar o marfim de sua presas na África e mal tratos no cativeiro no mundo todo.

    E até o poeta inglês John Donne já os observou em 1600 e escreveu: “obra-prima da natureza, um elefante: a única coisa que é grande e inofensiva”.

Esse texto foi baseado em Ted Talks  2015 de Alex Gendler.

Se ela falou, tá falado!

Por Laiali Chaar

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Pesquisas científicas mostraram que as mulheres tendem a demorar mais que os homens para tomar decisões, mas são mais propensas à mantê-las, ao contrário dos homens. Mulheres demoram mais para tomar uma decisão porque levam em conta aspectos como as incertezas, emoções e as consequências envolvendo a decisão e terceiros, enquanto os homens consideram mais as metas e a motivação dos envolvidos. Assim, somos diferentes para tomar decisões, mas juntos nos completamos. São neurônios de áreas específicas do cérebro que em redes fazem a tomada de decisão, mas isso é assunto para outro post.

Para saber mais:

María L. Sanz de Acedo Lizárraga*1, María T. Sanz de Acedo Baquedano1 , y María Cardelle-Elawar. Factors that affect decision making: gender and age differences. International Journal of Psychology and Psychological Therapy. 2007.

Neurônios fluorescentes

Por Laiali Chaar 

Luis de la Torre Ubieta Geschwind Laboratory UCLA

Crédito da imagem: Luis de la Torre-Ubieta, Universidade da Califórnia Los Angeles
Este encéfalo de camundongo foi fotografado em um microscópio na vista coronal, ou seja, dividindo a frente da parte de trás do encéfalo. Para criar essa imagem o tecido foi tratado para ficar transparente o que permite que estruturas profundas sejam vistas mais facilmente. Em seguida, o corte recebeu uma luz que identifica neurônios fluorescentes transgênicos, ou seja, que possuem uma proteína verde fluorescente também chamada de GFP. A GFP foi descoberta na década de 60 por Osamu Shimomura na água-viva Aequorea Victoria que era fluorescente. Pela descoberta e pelo desenvolvimento da GFP como importante ferramenta de pesquisa na biologia, Shimomura ganhou o Nobel de Química de 2008. Desde então, a GFP tem sido usada para dar fluorescência à células, neste caso neurônios. Ela é acrescentada ao genoma dos animais, assim seus neurônios produzem GFP e ficam fluorescentes. Esses animais são então transgênicos, ou seja, foi acrescentado ao genoma um gene da água-viva que gerará uma proteína que normalmente não produzem. Na foto acima, a GFP não está verde porque as cores foram transformadas de acordo com a profundindade dos neurônios. Neurônios mais superficiais são vermelhos e conforme são mais profundos são laranjas, amarelos, roxos, azuis e verdes. Essa foto ficou entre as 20 melhores imagens em ciência do ano e recentemente foi capa da revista Neuron, uma das revistas de Neurosciência mais lidas do mundo.

Água, o desintoxicante mais poderoso que existe

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Por Laiali Chaar

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      É muito comum encontrar pessoas, talvez você próprio seja uma delas, que ficam muito tempo sem tomar água ou dizem que não sentem sede. Na infância, 75% do peso do corpo é composto por água e na idade adulta mais de 50%. A água é essencial para a vida. A prova disso é que podemos sobreviver apenas de 3 a 5 dias sem beber água. Isso acontece porque a água tem funções importantes para manter o funcionamento normal do corpo humano. Algumas delas são ser meio de transporte de nutrientes e oxigênio, hormônios e gases às células; termorregulação através do suor e auxiliar no amortecimento do impacto nos ossos. A água também melhora nosso sistema imunológico pois ajuda no transporte do ferro que é importante para manter a ação das células de defesa. Além disso, a água ajuda a eliminar através da urina e fezes metabólitos que em excesso são considerados toxinas. Se você ingerir fibras e não tomar água elas não poderão agir absorvendo a gordura em excesso da alimentação. Todas essas funções da água geram um ambiente celular adequado para reações químicas e por isso a água é o melhor desintoxicante que existe. Por isso, uma boa hidratação interfere até em componentes físicos externos como, por exemplo, unhas e cabelos.

    A desidratação gera um estresse celular prejudicando o funcionamento adequado do corpo. Em um primeiro momento, as mucosas como a da boca secam. Com a piora da desidratação, aumenta a chance de surgimento de doenças ligadas ao ressecamento da pele, cálculos renais por acúmulo de cristais no rim, perda de cabelo, dores musculares e até mesmo (pasmem!) hipertensão. Desidratação extrema gera complicações neurológicas incluindo confusão, distúrbios neurosensitivos e convulsões. A desidratação está associada com maior morbidade, mortalidade e dependência em idosos. Tudo isso mostra a importância de uma hidratação adequada em nossas vidas.

    Ao longo da evolução, a desidratação tem sido um dos mais frequentes e potenciais ameaças à vida e um grande desafio para a homeostase. O organismo é capaz de regular de maneira muito eficiente o balanço diário de água. Assim, em uma pessoa saudável, a quantidade ingerida ao longo do dia sempre corresponde à quantidade eliminada. Isso é possível devido a mecanismos sofisticados de controle em que o cérebro participa.

Mas, como o balanço de água é controlado? Qual parte do corpo humano é capaz de detectar hidratação?

    A desidratação das células é sinalizada ao cérebro mostrando que precisamos nos reidratar e isso gera a sensação de sede. Os mamíferos desenvolveram respostas comportamentais e fisiológicas sofisticadas para regular o conteúdo de água diante das mudanças. As respostas comportamentais regulam  a ingestão de sal e água através de alterações no apetite e na sede. As respostas fisiológicas ajustam a excreção renal de água e sódio através de alterações na liberação de hormônios.

    Há sensores do estado de hidratação localizadas em áreas com localização estratégica, como na veia hepática, o que permite a detecção da quantidade de água nos alimentos e fluidos. A alteração do volume de água sistêmico é detectada no sistema nervoso central  em regiões do encéfalo que incluem: a área pré-óptica, o núcleo pré-óptico medial, o órgão vasculoso da lâmina terminal, o órgão subfornical e o núcleo supra-óptico. Esses sensores são capazes de fazer a transdução de sinais químicos em sinais elétricos que tenham significância para o sistema nervoso central. Esses neurônios ativam outras regiões cerebrais que estimulam a liberação de hormônios que controlam a excreção e a ingestão de água e sódio dentre eles a ocitocina, a vasopressina, o hormônio natriurético atrial e a angiotensina. Além disso, esses hormônios ativam circuitos de neurônios que regulam comportamentos que estimulam a busca por água.

   A desidratação pode causar hipertensão justamente por alterar a secreção destes hormônios que em excesso aumentam a pressão arterial. Devido à sua complexidade, os mecanismos pelos quais o equilíbrio hídrico é atingido pelo organismo são estudados até hoje pelos neurocientistas.

Mas, existe uma forma mais adequada para ingerir água?

   O Guia Alimentar Para a População Brasileira lançado em novembro pelo Ministério da Saúde indica que o maior consumo de água seja como água pura e água contida nos alimentos e preparações culinárias. É importante também que essa água seja potável para não causar malefícios. A água pode ser ingerida pura ou “temperada” com rodelas de limão ou folhas de hortelã, como café ou chá desde que seja com pouca ou nenhuma quantidade de açúcar.

    A maioria dos alimentos naturais ou minimamente processados tem alta quantidade de água. A maior parte das frutas e o leite contém entre 80% e 90% de água. Verduras e legumes cozidos ou em saladas tem mais do que 90% do seu peso em água. Após o cozimento, macarrão, batata ou mandioca têm por volta de 70% de água. Um prato de feijão com arroz é constituído de dois terços de água. Quando a alimentação é baseada nesses alimentos eles podem fornecer cerca de metade da água que precisamos ingerir.

     Alimentos industrializados são na maioria escassos em água para que não estraguem tão rápido e durem mais nas prateleiras. Biscoitos e salgadinhos tem menos que 5% de água em sua composição.

    Não é recomendado ingerir água em forma de refrigerantes ou sucos prontos por possuírem alta quantidade de adoçantes ou açúcares, aditivos, sódio e potássio, exigindo maior ingestão de água para eliminação do excesso destes elementos.

Mas, qual a quantidade certa de água a ser  ingerida?

      Há uma grande confusão quanto à quantidade certa para ingestão diária de água. Apesar de ser essencial para a saúde, em alguns casos, beber água em excesso ocasiona consequências negativas ao organismo, podendo levar até à morte. Um artigo com os orientações de hidratação para pessoas que praticam exercício foi elaborado por 16 especialistas de 4 países e publicado semana passada. Ele revelou os riscos de uma “super-hidratação”. A ingestão excessiva de água pode reduzir tanto o sódio plasmático, causando problemas neurológicos, como confusão, convulsões, edema cerebral e até levar à morte. Desde 1981, foram documentadas 14 mortes por “super-hidratação”. A ingestão de bebidas próprias para esporte não minimiza a “super-hidratação”,  pois ainda assim essas bebidas possui baixa quantidade de sódio.

       Como qualquer alimento, a quantidade de água que precisamos ingerir por dia é muito variável e depende de vários fatores: idade, peso, nível de atividade física e ainda clima e temperatura do ambiente em que se vive. De maneira geral, a recomendação é que qualquer adulto consuma, em média, 35 mililitros por quilograma. Para isso basta fazer uma conta simples: peso x 0,035 = X litros.  Se você for praticante de atividades físicas regulares, a ingestão de água deve ser ampliada para dissipar o aumento da temperatura corporal. Alguns maratonistas chegam a tomar 7 litros durante uma prova.

      Assim, para evitar a “super-hidratação” recomenda-se que você tome água quando sentir sede. Sempre que a água no organismo não está sendo suficiente para suprir o seu uso pelas células sentimos sede pelos mecanismos refinados de controle descritos mais acima no texto. Por isso, é importante se atentar aos sinais de sede logo e tomar água sempre que isso acontecer.

Para saber mais:

Bardgett ME, Chen QH, Guo Q, Calderon AS, Andrade MA, Toney GM. Coping with dehydration: sympathetic activation and regulation of glutamatergic transmission in thehypothalamic PVN. Am J Physiol Regul Integr Comp Physiol., 2014 1;306(11):R804-13.

Hooper L, Bunn D2, Jimoh FO3, Fairweather-Tait SJ4. Water-loss dehydration and aging. Mech Ageing Dev, 2014 136-137:50-8.

Guia alimentar da população brasileira. Ministério da Saúde, 2014. http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2014/novembro/05/Guia-Alimentar-para-a-pop-brasiliera-Miolo-PDF-Internet.pdf

McCann SM, Franci CR, Favaretto AL, Gutkowska J, Antunes-Rodrigues J. Neuroendocrine regulation of salt and water metabolism. Braz J Med Biol Res., 1997 30(4):427-41.

Mitchell H. Rosner. Preventing Deaths Due to Exercise-Associated Hyponatremia. Clinical Journal of Sport Medicine, 2015; 25 (4): 301.

Bem-vindos à Tudo Sobre Controle!

Por Laiali Chaar 

Será que estamos levando a vida de um modo equilibrado? Quer dizer, respeitando os limites do nosso corpo?

O que acontece quando não tomamos a quantidade de água necessária durante o dia? E quando não praticamos atividade física? Ou quando não dormimos? E quando ficamos em jejum?

Se a gente sabe que o excesso de gordura e sal fazem mal então por que comemos tanto? E por que chocolate é tão gostoso? E quem nunca comeu além do que precisava por estar ansioso? Ou ficou sem dormir por estar preocupado?

Por que sentimos sede? Por que sentimos dor? O que acontece no nosso organismo quando estamos apaixonados? E por que esquecemos mais quando estamos estressados?

Você sabia que é nosso cérebro que controla o equilíbrio de tudo isso? Vamos falar sobre isso?

Hoje, é o lançamento desta página aqui no facebook: TUDO SOBRE CONTROLE. Para discutir essas e outras questões sobre Neurociência. Espero vocês por aqui!